sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A arca de Noé que afundou Serafim Corrêa e seu subsecretário Sérgio Freire¹

(Luciano Roberto)


Até ontem eu era "amigo" no Facebook do cantor amazonense Paulinho Kokai. As músicas deste artista marcou a minha juventude. A primeira vez que eu o vi no palco foi no ano de 1996, quando fui convidado pelo meu ex-professor de História, Edmilson Lima para conhecer o espaço Pantanal, localizado no bairro de Petrópolis. O Pantanal era uma espécie de local dos militantes intelectuais do Partido dos Trabalhadores - PT. Fiquei maravilhado por estar  num ambiente  intelectualizado. Meses depois, um amigo de infância me deu de presente uma fita "demo" do trabalho do cantor, chamado "Zona Morta". Considero uma obra prima, pouco conhecida pela sociedade manauara. Perdi esta preciosidade em minha andanças nos bares da vida. Ainda hoje lamento!

Pois é, tornei-me fã de carteirinha das músicas de Paulinho Kokai, mesmo sem conhecê-lo. Imagine a minha felicidade quando o meu "ídolo" me aceitou como seu "amigo" no face. Caramba, fiquei muito feliz. Inclusive algumas vezes escrevi sobre a minha admiração em relação as suas músicas.

Mas o mundo é muito pequeno, o facebook tornou-o menor. Ontem, como de vício, já que não considero mais de "costume", entrei pela milésima vez no face, e veja que encontro o nome do ex-subsecretário de Educação do Município de Manaus - SEMED, na gestão do ex-prefeito Serafim Corrêa (2005 - 2008). O Sr. Sérgio Freire, irmão do cantor Paulinho Kokai. O ilustre autor do infeliz artigo "A Arca de Noé". O texto que compara professores a diversos bichos.

Tivemos o seguinte diálogo depois que vi o nome do ex-secretário:

EU: Por favor, não me diga que é o imbecil do ex-subsecretário de educação da SEMED, que escreveu o texto mais idiota do mundo sobre os professores.

SÉRGIO FREIRE: Sim, sou eu! (Então colocou uma carinha feliz, circular e amarela).

A atitude em se identificar, acabou me surpreendendo, "Sim, sou eu!". Considerei uma atitude nobre e corajosa, então comecei a escrever um novo texto pedindo desculpas pelas palavras chulas "imbecil e idiota", e passei a falar do seu infeliz artigo, tratando sempre por "senhor", o então ex-subsecretário.

Mas para minha surpresa, o Sr. Sérgio Freire, mandou uma nova frase: "Com qual bichinho você se identificou, Luciano?"

Mais uma vez o ex-subsecretário se demonstrou infeliz. Então, fui extremamente áspero com a minha resposta.

Sabe aquele ditado: "a minha educação depende da sua". Passei a tratar com respeito o ex-secretário, e o cara vem "com qual bichinho você se identificou". Perdeu imediatamente o meu respeito!

Depois de uma resposta cheia de mágoa, um desabafo, o dialogo continuou:

SÉRGIO FREIRE: "Luciano hoje é o meu aniversário. Fique com Deus".

EU: "Parabéns Noé!".

SÉRGIO FREIRE: "Obrigado".

Então o diálogo entre nós acabou. Outras pessoas continuaram defendendo o ex-secretário, mas é insignificante registrar aqui. Seus argumentos eram pífios.

Com uma terrível gripe que não me deixava dormir, passei a pensar no dia em que o artigo foi publicado em um periódico local. Estava em minha sala, número 6, na Escola Municipal Professor Roberto dos Santos Vieira, localizada no bairro João Paulo II, Zona Leste de Manaus. A professora Neiva Barros levou o jornal e perguntou se eu já tinha lido o artigo, "Arca de Noé" do subsecretário de Educação Sérgio Freire. Ainda não, respondi.

Após ler o texto, na hora do intervalo, a decepção, o repúdio, a revolta estava nos olhos de cada professor da escola. Como um homem, que nos representavam, podia escrever algo tão insano como aquele texto. Praticamente colocou a sociedade, que já não nos valorizavam, contra nós, de forma maquiavélica e irresponsável. O maior ato de traição que os professores de Manaus já sofreram. É por este motivo que devemos relembrar, para que atos assim, não aconteça novamente.

Acredito que todo o desejo de um intelectual é ser lembrado pelos seus escritos de forma positiva. Quando penso em poesia, lembro de Augusto dos Anjos e sua única e bela obra "Eu". Quando penso em História, vem em mente os livros de Eric Hobsbawm, Sandra Pesavento e tantos outros.

Outros homens marcaram a história com livros e textos totalmente negativos. Entre eles, só consigo pensar em "Minha Luta" de Adolf Hitler e o artigo "A arca de Noé" do ex- subsecretário Sérgio Freire. Quantas noites de sono deve ter perdido o ex-subsecretario por causa do infeliz texto. Quantas críticas e humilhações não deve ter sofrido.

Os professores passavam por um momento difícil na administração do ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa, também sofreram. Muitos colegas que eram contratados estavam perdendo seus empregos realizando a sua função, ou seja, estavam sendo demitidos dentro das salas de aula. Não critico o fato do ex-prefeito Serafim Corrêa convocar os professores concursados para assumir seus cargos legitimadamente,  através de Concurso Público. Crítico a forma como foi feita a transição.

Acontecia assim: o professor contratado estava em sala de aula, quando chegava um professor concursado para ocupar o seu lugar. Vivenciar este impacto foi doloroso, via a felicidade de quem chegava, por ter conquistado o seu trabalho legalmente, e a tristeza dos colegas que eram substituídos, aqueles que partiam. Os prefeitos, vêm e vão, os subsecretários também, e os professores continuam com a sua missão de construir um Brasil melhor, mais justo e digno para todos.

Quando pensei em escrever este texto, lembrei que tinha uma cópia do "Arca de Noé", no meu arquivo pessoal, mas encontrar esta cópia seria tão difícil, quanto encontrar "uma agulha no palheiro", devido ao caos de organização dos livros, revistas e jornais que tenho. Fui então para a internet, coloquei no Google o seguinte: "ARTIGO A ARCA DE NOÉ DE SÉRGIO FREIRE", tudo em letra maiúscula.

Os primeiros 6 sites são bastantes interessantes. Entre eles descobri o site do ilustre Professor Dr. José Ribamar Bessa Freire, Site Oficial - TAQUI PRA TI - CRÔNICA 717, cujo o título é "O TIO DELE SOU EU", do dia 28 de outubro de 2007, no Diário do Amazonas, onde afirma que "o pecado de Sérgio foi escrever o artigo 'A Arca de Noé' [...]".

Outro documento é o ofício nº 1510/2007, da Câmara Municipal de Manaus. Diz o seguinte:

"Manaus, 19 de dezembro de 2007.

Ao Senhor
SÉRGIO AUGUSTO FREIRE DE SOUZA
Professor

Assunto: Encaminhamento.

Prezado Senhor,

Estamos encaminhando, à sua apreciação, cópia da MOÇÃO N. 0436/2007, aprovada no dia 6 de dezembro de 2007, neste egrégio Poder Legislativo, da lavra do ilustre Vereador PAULO CARLOS DE'CAELI, com subscrição de outros Parlamentares, manifestando repúdio ao texto de sua autoria, intitulado 'A Arca de Noé'".
O ofício é assinado pelo presidente João Leonel de Britto Feitoza.
O oficio parece ser um ato político, mas não cabe ao historiador manifestar a sua opinião. Talvez os historiadores de um futuro próximo possam tratar de tal questão, com mais dedicação. O ofício tem outra citação importante:

[...]
"O texto intitulado 'A Arca de Noé' publicado no dia 19 de setembro em periódico matutino, é uma afronta aos professores, pois os compara, de forma humilhante, com animais. Não pode, quem quer que seja, deixar de admitir que professores são desvalorizados e humilhados pelos governantes, estes que não se dignam a remunera-los, tampouco dar-lhes condições de um trabalho digno".

Dos 36 vereadores da época, apenas 8 não assinaram o ofício. São eles: Braz Silva (PSDC), Irailton Sena (PT do B), Leonel Feitoza (PSDB), Mirtes Sales (PP), Massami Miki (PSL), Nélson Amazonas (PMDB), Paulo Nasser (PSC) e Vitor Monteiro (PTN).
Muito foi debatido, escrito nos meios de comunicação e entre os professores sobre o assunto. No site O MALFAZENO, de 8 de novembro de 2007, foi escrito o artigo chamado "Noé foi atirado ao Mar", de Ismael Benigno, que questiona o fato de "tanta discussão e alvoroço gerou, que o artigo acabou por derrubar Sérgio - ou, parafraseando-lhe, deixá-lo de fora da grande barca. A bicharada das pajelas e do giz lhe atirou ao mar. Convenhamos, não era pra menos. Comparar os professores a preguiças, pavões, antas, morcegos, aranhas, hienas e urubus não foi, digamos, a forma mais feliz de homenagear aqueles com quais Sérgio trabalhava".

Um país que almeja crescer economicamente, culturalmente e socialmente, tem a obrigação de respeitar seus professores. Como um animal racional,  homo sapiens sapiens!

¹ Escrevi este texto há três anos atrás. Relembrar fatos como o texto do Sr. Sérgio Freire sempre é importante, para que nunca mais venha se repetir.

Sites consultados:

Texto "A Arca de Noé": blogsergiofreire.blogspot.com.br/2008/10/arca-de-no.html.

omalfazejo2.wordpress.com.br/2007/11/08noe-atirado-ao-mar/
(Consultado em 06 de setembro de 2013)

www.sergiofreire.com.br/RepudioSergioFreire.PDF
(Consultado em 06 de setembro de 2013)

www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=114
(Consultado em 06 de setembro de 2013)


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A corrupção tem história

(Luciano Roberto)



A corrupção tem história. Ela não é uma prioridade das sociedades contemporâneas. Feito um vírus, a corrupção vem ao longo dos séculos se desenvolvendo como uma peste, que apenas torna-se mais forte, poderosa e dolorosa.

Não escrevo e nem tenho a pretensão de escrever para ofender os nobres políticos brasileiros. Deixo esta função a grande mídia, que possui um vasto material disponível. Aliás, a corrupção passou a ser um produto de consumo, é vendida como notícia diariamente. 

Procuro apenas, buscar a compreensão da origem da corrupção. Sendo assim, o primeiro passo é conhecer a etimologia da palavra corrupção: "Antes de designar a venda ilegal de favores por representantes do poder público, corrupção é deterioração, decomposição física, apodrecimento. "Corrupto" vem do latim corruptus, particípio de "corromper": é o corrompido, o podre, o que se deixou estragar"¹. Ah, tá explicado! Corrupção está ligado a podridão.

A corrupção é um espectro que assombra e se espalha pelo nosso país. Um parasita que se alimenta e mata lentamente milhares de brasileiros diariamente. Ela está sorrindo nas filas dos hospitais públicos, quando humildes cidadãos estão em busca de socorro. Ela incita a ignorância nas escolas públicas sem estrutura suficiente para proporcionar uma educação de qualidade. Quanto a educação pública, o sistema e seus mecanismos estão mais preocupados em quantidade do que qualidade. A corrupção é um vírus parasita. E o povo, o seu hospedeiro.

Encontramos a corrupção na Antiguidade. Nas famosas cidades-Estado gregas, a qual damos o nome de pólis. Atenas foi vítima deste vírus, mas, graças a corrupção engrandeceu.

Durante as Guerras Médicas, também conhecida como Guerras Greco-Persas (499 a.C. - 449 a.C.), os persas decidiram invadir as pólis gregas. Para combater a invasão persa, foi criada a Liga de Delos, organizada por Atenas. A Liga de Delos foi a união entre as pólis gregas para enfrentarem um inimigo comum.

Atenas, berço da filosofia e da democracia tornou-se a líder da Liga de Delos. As pólis que tiveram destaque neste período, podemos citar Esparta, Tebas, Creta entre outras.

É interessante observar que as pólis eram independentes umas das outras. Cada pólis tinha a sua economia, seu governo e sua própria cultura.

A língua grega era a única motivação que unia as pólis. Esta união levou a derrota dos persas.

A Liga de Delos permaneceu após as Guerras Médicas. Os aliados que faziam parte dela, tinham que contribuir com navios, equipamentos e dinheiro. Como já não havia guerras, o governo de Perícles achou melhor utilizar os recursos dos seus aliados para financiar várias obras públicas em Atenas, e supostamente, a benefício próprio.

O mal uso dos recursos dos aliados usado de forma a beneficiar Atenas, foi o estopim para o surgimento de uma nova guerra: Guerra do Peloponeso (431 a.C. - 404 a.C.). Esparta liderou a batalha contra Atenas.

Esparta saiu vitoriosa. A corrupção levou ao fim do imperialismo ateniense. Mas pasme, Esparta passou a usar a mesma política corrupta de Atenas, obrigando seus aliados a pagarem impostos a pólis espartana. Conclusão: várias guerras levaram  a decadência da Grécia Antiga. As pólis enfraquecidas, foram presas fáceis de serem conquistadas pelos macedônios.

As pólis gregas foram infectadas pelo vírus da corrupção. Corrupção neste sentido, está ligada intrinsecamente ao poder.

Vamos pensar em outra grande civilização da Antiguidade, a romana. Destaco resumidamente, o exemplo do ditador Júlio César. Mas, poderíamos citar Calígula, Nero etc.

Júlio César teve uma carreira política rápida. Tornou-se ditador de Roma. Seus poderes eram vitalícios, mas para ele, era pouco. Júlio César queria que seus poderes fossem hereditários. Passado aos seus descendentes. Só tinha um probleminha, Roma era uma República, e seus senadores sentiram cheiro de corrupção, então decidiram matar Júlio César com punhaladas.

Cada senador aplicou um golpe sobre o corpo do ditador. Júlio César se deixou estragar pela ambição do poder.

Talvez não haja na história maior exemplo de corrupção do que ocorreu na Idade Média. Neste período, a Igreja Católica era a instituição mais poderosa da Europa.

Foi durante o papado do Papa Leão X, que surgiu a venda de indulgências. Ocorria mais ou menos assim a máfia da igreja. O indivíduo pecava, matava, roubava ou adulterava e se arrependia. Então o remorso tomava conta da sua alma. O medo de ir direto para o inferno batia em seus pesadelos. Mas havia uma forma de livrar-se do pecado: pagar indulgências para igreja. Pagava e logo era perdoado.

Esta situação, levou um jovem monge intelectual alemão a se revoltar, chamado Martinho Lutero. O jovem mongem, foi responsável pelo surgimento da Reforma Protestante.

A Reforma Protestante levou ao fim o poder absoluto da Igreja Católica sobre diversos países do velho continente. Surgiram novas instituições religiosas como a luterana, calvinista e anglicana. Este movimento reformista cristão levou centenas de pessoas a morte. Graças a corrupção.

Poderia citar outros exemplos de corrupção na história, mas o texto tornaria-se extenso demais.

Vamos agora, finalmente falar sobre a história da corrupção em nosso país. A corrupção no Brasil chegou com Pedro Álvares Cabral e até o momento em que escrevo, ainda não teve fim...        





¹ http://www.dicionarioetimologico.com.br/ (Acessado: 19/10/2016)

domingo, 16 de outubro de 2016

Arthur Neto x Marcelo Ramos: e a política do "café com leite"

(Luciano Roberto)

Arthur Neto (PSDB) e Marcelo Ramos (PR)

Em 1889, o Brasil viveu um grande momento histórico. Deixou de ser uma monarquia e tornou-se uma república. Foi uma revolução, mas diferentes das revoluções francesa, russa e cubana, não houve a participação do povo brasileiro.

Anos mais tarde, o genial historiador José Murilo de Carvalho escreveria sua grande obra "Os Bestializados". A obra retrata o episódio ocorrido na cidade do Rio de Janeiro, na época capital do Brasil.

O título do livro é baseado na famosa frase de Aristides Lobo, que escreveu o artigo "O povo assistiu àquilo bestializado", em 1889. Resumindo: o povo dormiu em um país monárquico e acordou em um país republicano.

Então tivemos o primeiro presidente do Brasil, Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), um militar. Depois o alagoano Floriano Peixoto (1839-1895) - outro militar, só pra variar - e finalmente, o poder executivo foi entregue a um civil, Prudente de Morais (1841-1895).

Nascia no Brasil, o período conhecido como República das Oligarquias. Os grandes latifundiários passaram a governar o país. Com uma peculiaridade, Minas Gerais e São Paulo se reversavam no poder. E permaneceram até 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder.

Tive que realizar este pequeno contexto histórico, para falar dos nossos nobres candidatos a prefeito de Manaus, Arthur Neto (PSDB) e Marcelo Ramos (PR).

Arthur Neto tem o apoio do atual Senador Eduardo Braga (PMDB).

Marcelo Ramos tem um apoio mais pomposo, composto pelo Governador José Melo (Pros), Senador Omar Aziz (PSD), Alfredo Nascimento (PR), sendo que no último debate transmitido pela TV Bandeirantes, Arthur Neto acusou Marcelo Ramos de receber apoio do velho cacique Amazonino Mendes (PDT). Só gente boa!

Se o velho boto tucuxi Gilberto Mestrinho fosse vivo, estaria neste meio com certeza. São os mesmos que estão mamando nas tetas do governo há quase três décadas. Aliás, é impossível lembrar do velho Raposo sem cantarolar "pelo rio o caboclo navega sem medo oh!oh!oh!"...

Toda essa quantidade de nobres políticos faz eu lembrar a poesia "Quadrilha" de Carlos Drummond de Andrade: "João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém"(...). Na minha humilde versão, ficou assim: "Gilberto Mestrinho que criou Amazonino Mendes / que criou Eduardo Braga que criou Alfredo Nascimento e Omar Aziz / que criou José Melo que ainda não criou ninguém". Será o Marcelo Ramos a primeira criação do governador?

José Ricardo (PT) e Hissa Abrahão (PDT), ambos candidatos a prefeito no primeiro turno, fizeram bem em não divulgar apoio a nenhum dos dois candidatos no segundo turno. O Hissa Abrahão saiu enfraquecido nesta eleição, deve ter aprendido a lição nas eleições de 2012, quando foi vice de Arthur Neto, que soube usar o jovem político como ninguém.

Arthur Neto e Marcelo Ramos estão revivendo a política "café com leite". Há muito tempo seus apoiadores estão se reversando no poder. Uma hora são aliados, noutra são inimigos mortais. Quem será o vencedor no próximo dia 30 de outubro? Façam suas apostas! Eu já tenho o meu candidato, e você?



       

   

     

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Por que alguns professores perdem a paixão pela sua profissão?¹

                                                     (Luciano Roberto)
Professores da Escola Estadual Gilberto Mestrinho na escolha do livro didático.

     A paixão, assim como o amor são sentimentos abstratos que a humanidade desenvolveu ao longo de sua jornada histórica. São sentimentos puros que se enquadram em relação à pessoa amada, aos filhos, a um bem material, a um animal de estimação e até mesmo a uma profissão. No mundo capitalista de mercado e lucro, nada melhor para um indivíduo do que trabalhar na profissão que lhe causa satisfação. 

    Conheço condutores de ônibus coletivos que adoram dirigir, imagino médicos que se sentem orgulhosos por serem úteis ao próximo, e claro, professores apaixonados em ensinar e aprender, diariamente, na sua praxe construtora de uma sociedade conscientizada. 

      Dando ênfase ao professor, surge a interrogação: porque alguns profissionais da educação perdem a paixão por sua profissão? Pensando nesta questão um tanto complexa, é que elaborei – mesmo que equivocadamente – três possíveis hipóteses, que prefiro chamar de pilares para que ocorra esta falta de compromisso com a educação, pois paixão é envolvimento com o outro, responsabilidade e desejo. O sujeito apaixonado é antes de tudo um utópico, acredita na felicidade, em uma vida melhor e mais digna. A morte das utopias contemporâneas são demonstrações do progresso em que os homens se encontram e, ao mesmo tempo, o seu regresso diante de uma sociedade competitiva. É necessário resgatar as utopias e acreditar na possibilidade de desenvolvermos um mundo melhor. O mestre e humanista Paulo Freire acreditava em uma revolução através da educação; acredito que este é o caminho a ser seguido, mesmo que este caminho seja repleto de espinhos. A ausência de paixão em relação à educação é causada pelo paradigma mantido através do sistema educacional que valoriza mais quantidade do que qualidade. Romper com este paradigma é uma obrigação política, social e cultural de toda a nação brasileira. 

     A razão que causa a perda da paixão dos profissionais da educação é sustentada em três pilares: desvalorização econômica, desvalorização social e desvalorização política.

      O primeiro pilar, a desvalorização econômica é responsável pela exaustão em que são submetidos à grande maioria dos educadores, muitos chegam a trabalhar sessenta horas semanais, como cita o professor Hamilton Werneck autor do livro Tornei-me pessoa: “Os professores não têm, na verdade tempo para ensinar” (p.12). Ora, se os professores não têm tempo para ensinar, imagine tempo para aprender. A insana corrida exigida pelo capitalismo obriga professores a encararem uma jornada de trabalho muito maior do que deveriam enfrentar. No mundo capitalista a questão econômica é um símbolo de status, levando ao desrespeito e falta de dignidade para as classes menos favorecidas. Não valorizar os profissionais de educação é desmoralizá-los diante da sociedade, pois o respeito e admiração (principalmente por parte dos educandos) acabam sendo decrépito instantâneo. Esta desvalorização cria uma falta de expectativa em relação à profissão de educador, causando certo tormento, mesmo que ingênuo, interrogar-se: será uma profissão extinta no futuro? 

   O segundo pilar é a desvalorização social, que está intrínseca ao primeiro pilar. O professor desvalorizado economicamente passa a perder credibilidade na sociedade. Quantos professores já sofreram agressões físicas e orais em seu ambiente de trabalho? Isto é reflexo do prestígio e respeito que o profissional da educação está perdendo. No artigo Professor: história de medos e ousadias, publicado na Revista de Educação AEC, número 143, a Doutora em Sociologia Célia Maria Costa alerta que “a violência, as drogas, o desemprego, o predomínio de uma educação bancária, a questão salarial, a falta de condições de trabalhos são alguns dos medos dos docentes” (p. 38). Conclusão: os professores são reféns dos males causados pela sociedade e, consequentemente, do sistema capitalista. 

   Finalmente, o terceiro e último pilar, é a desvalorização política. Este pilar é de exclusiva responsabilidade de alguns professores que acabam esquecendo (ou não têm conhecimentos) do seu poder político. Muitos professores em véspera de eleição acabam vendendo-se a políticos em troca de pequenos favores. Sendo a educação uma arte política, os professores têm por obrigação usar a sua influencia política para desmistificar as falsas verdades imposta pela classe dominante e ajudar na conscientização e não pensar apenas em si próprio. Tornar-se fantoche nas mãos de políticos é não acreditar na profissão de educador, é auto desvalorização. O professor fantoche-político é responsável por contribuir para a morte das utopias, é culpado na manutenção da decadência dolorosa da educação pública e da sua profissão. Vive a inércia dialética que rasteja a décadas na educação do Brasil. Os professores que perderam a paixão pela educação, precisam com urgência aprender a amar, pois, com o fim da paixão só resta a dor ou o surgimento do amor, como dizia o poeta Renato Russo “é preciso amar…” Sendo que o professor que optar pelo amor, fará a diferença no processo educativo e na construção de uma nova sociedade. Mas amor com valorização. Só posso amar alguém quando sou valorizado e amado. Será que nossos representantes – vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores, presidentes – não percebem? Ou fingem que não sabem? Valorizar o professor é desenvolver um novo Brasil! Valorizar o professor é respeitar a sociedade! Valorizar o professor é uma obrigação!




¹ Escrevi este texto a três anos atrás. Acabei encontrando ele no Blog "História com Farinha" do Professor Jonas Ojuara. Penso que continua tão atual quanto outrora.

jonasojuara.wordpress.com/2013/06/

terça-feira, 11 de outubro de 2016

20 anos sem Renato Russo

(Luciano Roberto)

Renato Russo: vinte anos sem o poeta

     Você que tem idade acima de 35 anos, se lembra o que fazia exatamente a 20 anos atrás, mas precisamente no dia 11 de outubro de 1996? Eu lembro. Andei de patins durante a manhã e a tarde fui para Escola Municipal Júlia Barjona Labre, onde estudava, localizada no bairro São José Operário, Zona Leste de Manaus. Na escola, ocorreram os dois primeiros tempos de Língua Portuguesa e  o terceiro de Matemática.

   Cursava a 8ª série na turma "C". Último ano do Primeiro Grau. Era assim que chamávamos o Ensino Fundamental II.  Finalmente tivemos a hora do recreio.

     O "grude" - era como alguns colegas chamavam a merenda da escola - até que era bom. Foi neste momento que apareceu a Hebe, aluna novata na escola que facilmente se entrosou conosco. Era branquinha, com um nível de atitude fora de sério. Além do mais, era uma gata! Ela trazia consigo um cigarro. Ficávamos atrás da escola, batendo papo, paquerando e fumando.

     Hebe trouxe a notícia. "Vocês já sabem?". A pergunta flutuou por um instante em nossas mentes sarnentas por conhecimento. "Sabem o quê?". Quase todos que estavam presentes falaram ao mesmo tempo. Foi então que a Hebe disparou a notícia: "Renato Russo morreu!". Caracas! Puta que pariu! Ficamos intactos, era papo, não era verdade. Renato Russo não havia morrido, mas morreu.

     Em 1996, vivíamos a década da cultura inútil. A "bundalização" tomou conta do país. De Norte ao Sul não tocava outra coisa na rádio a não ser "É o than". Outra banda que começou a fazer um grande sucesso neste mesmo ano, foram os "Mamonas Assassinas". Com o seu jeito descontraído conquistou o Brasil.   

     Fumamos nossos cigarros em silêncio. Podíamos ouvir o canto dos pássaros, o vento soprando nossos rostos, o barulho dos ventiladores do teto empoeirados das salas vazias. Finalmente o barulho da campainha, que nos avisava o fim  do recreio.

     Retornamos para a sala de aula. Ficamos esperando amarguradamente o  termino do dia letivo. 

     Ao sair da Escola Municipal Júlia Barjona Labre, fomos até ao Bar do Sally. Famoso bar de encontro de adolescentes e jovens que curtiam rock n' roll. Lá encontrei vários amigos, todos lamentando a morte do poeta. Renato Russo morreu e deixou sua obra prima para todo sempre: a música. 

    O bom e velho rock n´roll nacional, havia ficado mais uma vez órfão.



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Porra é com "dois r" professor?*

(Luciano Roberto)

     

    Detesto levar meus alunos para enfrentarem a direção da escola. São poucas as vezes que levei algum aluno problemático para que houvesse interferência do(a) pedagogo(a) neste meus dezesseis anos de magistério.
     
     Na minha opinião, o professor que leva o seu aluno para as mãos da direção da escola, acaba sem perceber, criando provas contra a sua falta de perspicaz em solucionar seus próprios problemas em sala de aula. Claro que há casos e casos! 

     Guardo em minha memória um desses casos. Seu nome: Rogério.
     
   O Rogério era um garoto com faixa etária acima dos demais alunos do 3º Ano do Ensino Fundamental da  Escola Municipal Roberto dos Santos Vieira. Tinha 10 anos, enquanto que os demais alunos tinham 8 anos de idade. Parecia ter saído das estórias em quadrinhos do incrível cartunista Maurício de Sousa.

     Certamente que todos já ouviram falar do Cascão. Criança esperta, amigo fiel do Cebolinha, nos momentos bons e nos momentos de coelhadas, que não gosta de tomar banho. Pois bem, o Cascão perto do Rogério era limpíssimo.

     O Rogério morava com seu avô. Um senhor de idade avançada que tinha como sustento, produzir carvão. Morava numa casinha bem humilde de palafita. O piso era de barro batido. O banheiro ficava no quintal, tinha paredes de palha, um enorme buraco, sobre a fossa algumas tábuas. Literalmente poderia se defecar e ouvir o barulho das fezes ao tocar no fundo do poço.

     Havia também o vira-lata "Olho fundo". O cão era tão magro que mal se aguentava em pé. Vivia nos braços do Rogério. Dormia no colchão encardido com o menino. Os dois eram como unha e carne, quase não se largavam. Rogério ia para escola, Olho fundo ficava esperando no portão.

     Na sala de aula, o odor se espalhava, ou seria melhor, o fedor? Era uma mistura de cheiro de urina mais cachorro molhado e um bocado de coisas a mais que ninguém conseguia identificar. As outras crianças se afastavam do Rogério. Ele ficava triste, eu também. Centenas de vezes alertei o Rogério do seu problema. Falava para o avô. Mas não adiantava, quando era noutro dia, lá chegava o Rogério com seu cheiro inconfundível.

     Certa vez fiquei irritado. Não dava para suportar o cheiro ruim do Rogério. Então fiz a primeira de tantas outra bobagens que acabamos fazendo ao longo da trajetória docente: gritei com ele e chamei de "menino porquinho". Para piorar, a classe toda sorriu. E repetia:

     __Menino porquinho! Menino porquinho!...

     Ordenei que a turma parassem de repetir aquelas palavras. Enquanto falava com os alunos, o Rogério escreveu a palavra "PORRA" bem grande e nítida no braço da sua carteira. Olhei para ele e perguntei:
     
     __O que é isso rapazinho? Com o tom de voz áspera.

     Rogério respondeu com outra pergunta:
     
     __ Porra é com "dois r" professor?

     Foi a gota d'água. Peguei no braço do Rogério e levei ele para a diretoria. Estava farto!

     Naquele dia saí da escola exausto. O turno era matutino e eu deveria seguir para outra escola no vespertino. Não fui. Peguei o ônibus e fui direto para casa. Antes de chegar em casa, parei no bar do Seu Renato e tomei um porre. Talvez um dos piores porres que já tenha tomado.

     O remorso havia invadido a minha alma. O Rogério era analfabeto, e a primeira palavra que ele havia escrito corretamente, em vez de receber um elogio, foi castigado.

     Poderia ter feito assim pensei durante a minha embriaguez:

     __Muito bem Rogério, a palavra "PORRA" é escrita com "dois erres". Mas ela não pode ser dita por um menino bacana como você... ou poderia ter dito... não sei...

     No outro dia fui para escola, ia resolver tudo com o Rogério, mas ele não estava na fila com os demais alunos. Entramos na sala, todos sentaram-se. Dirigi-me até a sua carteira. Estava vazia, e sobre o braço dela, estava escrito "PORRA", corretamente com os "dois r". 


*A história acima é uma ficção com algumas doses de realidade.

     

   
A poesia no cotidiano do sujeito histórico


     A poesia sofreu um grande impacto nas últimas décadas. Foi ao pouco sendo esquecida, vista apenas nos suspiros de alguns utópicos apaixonados. Mas a poesia não deve ser abandonada completamente. Ela é uma ferramenta poderosa que pode ser utilizada por educadores em sala de aula.

     Foi com esta ideia na mente, que levei a poesia para a turma do 9º Ano 01, do Ensino Fundamental da Escola Estadual Gilberto Mestrinho em 2015. Um ano depois, sem querer, mexendo em meus arquivos, acabei encontrando elas hoje. Então, achei por bem socializar.

     São temas contemporâneos, que falam de luta, medo, tristeza e sofrimento. Claro que a poesia abrangem a todos esses sentimentos humanos, sem esquecer a paixão, o amor, desejos etc.  

   Os alunos escolheram uma temática que destacava a desigualdade social adolescente/juvenil e passaram então a produzir suas poesias. Elas foram declamadas através da realização de uma performance para os demais alunos da escola.

     A poesia crítica, que denuncia as mazelas deste mundo. Falando da vida e dos sujeitos históricos, que encontramos nos sinais, nas feiras, nas ruas... Sem expectativas, sem direito a sonhar.

     Destaco algumas delas agora.         

Flanelinha
(Diego Fernando)

Mim olho no vidro, no vidro do carro.
Tenho em minhas mãos um spray e um cabo.

Da vida ganho chute e tapinha,
O meu trabalho é de flanelinha.

Eu vejo pessoas por mim passando.
Olho o dia e já está acabando.

Ricos e humildes é assim...
Queria essa vida, quando eu chegar ao fim.

Mas disso não mais exijo
Dos meus sonhos eu até desisto.

O sinal vermelho abre
E para a calçada eu vou.

A noite tristonha chega
E sol quente já passou.


Juntar Latinha
(Diego Fernando)

O meu alarme soa,
Meu dia não começa a toa.
Mim levanto para trabalhar
Minha família “preciso” alimentar.

De bom não como nada
Mas eu gosto de sardinha
Minha sandália esta acabada
Ganho a vida catando latinha.

Todo dia é assim,
Então não é o fim.
Na vida, não dou gemido
E é assim que sobrevivo.

  
Vender Salgados
(Itamar Azevedo e Matheus Silva)

Crianças passam na rua e gritam:
“Salgado! Salgado!
Comprem, estou necessitado,
Pois, os meus pais estão desempregados.

De manhã cedo acordo,
Começo a enrolar a massa
E penso como o meu dia será?
Lembro que mais um dia vão me explorar.

Desde que me entendo por gente
Começaram a me explorar
Desde cedo,
O brilho quente do sol bate no olhar
E penso, sou apenas uma criança imaginando
A ser livre para sonhar.


Servente de pedreiro
 (Diego Fernando)
Tijolos carregam
Areia peneiram
Concreto farão
Pois serventes eles são.

Medindo a parede
Trena na mão
Maceira no chão
Plumo de enfeite na mão.

Escola eles faltam
Para fazer lajes altas
Poderia estudar
Mas é obrigado a trabalhar.


Malabarismo da vida
 (Sophia Leão)
O sinal vermelho fechou
O trânsito parou
Francisco pegou suas laranjas
E malabarismo realizou.

O condutor olhou
Fez cara de quem não gostou
Levantou o vidro do carro
E se isolou.

Francisco na rua ficou
Recebeu cinquenta centavos
Do condutor
Que estava atrás
Do primeiro condutor.

O sinal verde abriu
Francisco da rua sumiu
O futuro do Brasil
Sentado na sarjeta
chorou.