sábado, 26 de novembro de 2016

Adeus, Comandante Fidel Castro!

(Luciano Roberto)

Fidel Castro [1926 - 2016].

Morrer é tão natural quanto nascer. Ontem [25], morreu Fidel Castro, aos 90 anos de idade. Ao lado do seu irmão Raul Castro, Ernesto "Che" Guevara, Camilo Cienfuegos, entre outros, Fidel lutou contra a tirania do ditador Fulgêncio Batista. Por ironia do destino, também tornou-se um ditador. Realizou a famosa Revolução Cubana em 1959.

Amado por alguns, odiado por outros, Fidel Castro levou a pequena ilha de Cuba, a diminuir drasticamente o analfabetismo. Quanto a saúde, Cuba já foi considerada um modelo a ser seguida pela Organização Mundial de Saúde. Não a toa, tornou-se a principal parceira do Brasil no "Programa Mais Médicos", desenvolvido pela ex-presidente Dilma Rousseff.

Fidel Castro soube como ninguém se perpetuar no poder. Foram mais de cinco décadas na liderança do governo cubano. Ao sair, feito uma monarquia de Cuba, entregou hereditariamente o governo a Raul Castro.

Na América Latina, Fidel Castro foi o inimigo número 1, dos Estados Unidos. Dono de uma oratória fora do comum, seus discursos eram longos e chegavam a serem tediosos.

Após a Revolução de 1959, Cuba sob a liderança de Fidel, tornou-se aliada da extinta União Soviética. Foi palco da Guerra Fria, e responsável pelos momentos mais tensos neste período, quando o líder soviético Nikita Kruschev tentou enviar armas nucleares para ilha de Fidel.

Sob a retaliação estadunidense, o embargo comercial parece ter deixado Cuba congelada no tempo, mais precisamente nos anos 60.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas chegou ao fim no começo dos anos 90. Em 1989, o famoso Muro de Berlim foi destruído. Rússia, antes a principal aliada de Cuba, precisava se recuperar, abrir suas portas para o capitalismo e deixou os cubanos seguirem  a própria sorte.

Muitos cubanos abandonaram a ilha de Castro. Numa tentativa quase suicida, lançavam-se ao mar com objetivo de chegar nos EUA em embarcações improvisadas.

Nos últimos anos, Fidel Castro conseguiu fôlego econômico no petróleo venezuelano, do seu amigo e também falecido, Hugo Chávez.  

Nunca fui admirador de Fidel Castro. Pelo fato de existirem hipóteses que ele seria responsável pela morte do segundo homem mais forte da Revolução Cubana, Ernesto "Che" Guevara. Fidel não teria dado suporte suficiente para que "Che" conseguisse realizar a revolução na Bolívia. Morreu em 9 de outubro de 1967.

Fidel morreu. Seu nome, seus atos, seus sonhos, suas frases, seus objetivos, suas ambições, agora pertencem a História. Não admiro-o, mas respeito sua biografia. Adeus, Comandante Fidel Castro! 

      

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Escola Municipal São Luiz dá um show de queimada

(Luciano Roberto)

Professores Jobson Barbalho e Emanuel Silva, com as alunas da São Luiz

Quem nunca brincou pelo menos uma vez na vida de "Queimada". Pois é, este jogo foi uma da modalidades da "Caravana da Cidadania nas Escolas e Comunidades". Uma parceria SEDUC, SEMED e Secretaria de Segurança Pública.

O jogo ocorreu na quadra da Escola Estadual Áurea Pinheiro Braga, localizada no bairro Cidade do Leste.

Das vinte escolas que competiram nesta modalidade, duas realizaram a grande final hoje, foram: Escola Municipal São Luiz e o CETI Professora Cinthia Regia. Se levarmos em conta as estruturas físicas das duas escolas, seria uma disputa entre Davi e Golias.

Mas o esporte não é feito de estrutura física. O esporte é feito de amor, dedicação e vontade. São qualidades que os professores de Educação Física da São Luiz, Emanuel Silva e Jobson Barbalho passam para os alunos.

A São Luiz deitou e rolou em cima do CETI Cinthia Regia, a superioridade foi gritante. A "queimada" é dividida em três etapas, assim como "as partidas de vôlei são disputadas em cinco sets, conseguindo a vitória quem tiver mais pontos, ou em três sets de 25 pontos"¹.

Dividida em três etapas, as jogadoras da São Luiz venceram facilmente as duas primeiras etapas, não sendo necessária realizar a terceira.

Premiação: Alunas da São Luiz e o professor Emanuel.

Uma da principais jogadores da São Luiz, a aluna do 6º Ano "A", turno vespertino do Ensino Fundamental 1, Ana Célia, 11 anos, fez o seguinte comentário: "Treinamos muito, tivemos garra, união e vontade de ganhar. Nosso professor Emanuel é muito importante para nós, pois sem as suas instruções não estaríamos aqui, e nem tínhamos ganhado".

Recentemente, os grandes sábios do MEC, penso que todos possuem o mais auto grau de titulação acadêmica "pós-doc", decidiram sozinhos na tendenciosa Reforma do Ensino Médio, que a Educação Física deixaria de ser obrigatória no Ensino Médio. Nossos pensadores não se importaram nem mesmo em consultar os professores de Educação Física, os principais interessados.

As mentes pensantes do MEC neste governo golpista de Michel Temer, não se importam com a Educação Física, Filosofia, Sociologia e Artes nas escolas públicas, simplesmente pelo fato de ignorar a realidade destes profissionais que se entregam em uma causa que eles abominam: desenvolver cidadãos críticos no Brasil!








¹http://portalsuaescola.com.br/regras-do-volei/ (acessado: 25/11/2012).

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O PT matou as minhas útopias

(Luciano Roberto)

O PT traiu a si mesmo!

Acabei de receber uma mensagem de um amigo, Fernando Almeida. Era um artigo escrito por Leonardo Boff, com o título: "Nós erramos". O texto me levou a pensar no meu tempo de militância política, onde estava infectado por ideologias que levariam a igualdade social, uma sociedade mais justa, onde todos poderiam gozar de suas intelectualidades, habilidades, não haveria fome e nem miséria.

Durante toda a minha adolescência e juventude passei a acreditar nestas utopias. Acreditava que o revolucionário argentino Ernesto "Che" Guevara, não havia morrido em vão na Bolívia, tinha perdido a vida por ideias nobres,  por uma revolução justa. Quem não desejaria uma morte honrada como a de "Che"? 

O artigo de Leonardo Boff, interroga e lamenta: "Por que abandonamos as periferias; tratamos os movimentos sociais como menos importantes; e fechamos as escolas e os centros de formação de militantes? Fomos contaminados pela direita. Aceitamos a adulação de seus empresários; usufruímos de suas mordomias; fizemos do poder um trampolim para ascensão social".

O PT esqueceu de suas origens, o PT tornou-se aliado dos nossos inimigos, o PT abandonou suas ideologias, e consequentemente,  deixou o Brasil em segundo plano. O primeiro plano eram as ambições do próprio  PT.

Mas tudo que está acontecendo no Brasil é culpa do PT? Claro que não! Porém, o PT tinha  obrigações sólidas, pois foi um governo que surgiu do seio do povo, feito para o povo e que deveria trabalhar pelo povo. O PT não podia errar, o PT permitiu que suas ambições superassem seus ideais.

Lembro de cada detalhe, meu subconsciente guarda em um lugar seguro a fala de Lula, quando assumiu a presidência em 1º de janeiro de 2003. Dizia o presidente: "Eu que tantas vezes fui acusado de não possuir um diploma de Ensino Superior, recebo o meu primeiro diploma: Diploma de Presidente da República Federativa do Brasil". Diante da televisão, via o sonho de um operário, de um povo chegar no mais alto grau do poder político: Presidente do Brasil.

O Brasil se desenvolveu muito durante o governo Lula. Ninguém pode argumentar ao contrário. Neste período, durante uma gestação de 13 anos, a ambição do PT começou a ser parido das entranhas da corrupção, surgiram dólares na cueca, o mensalão, a lava jato e sabe lá, o que mais!

O PT traiu suas ideologias, traiu o povo brasileiro. O PT matou sonhos e utopias de jovens, adultos, artistas e intelectuais. O PT matou minhas utopias! 

Utopias destruídas são feitos pássaros da mitologia grega, assim como a Fênix, das cinzas renascerá. Mas o PT  meu caro Fernando Almeida, para mim morreu abraçado aos seus erros!



sábado, 19 de novembro de 2016

Zumbi dos Palmares vive em cada um de nós!

(Luciano Roberto)

Alunos caracterizados do 2º 04.

Navio Negreiro
(Castro Alves 1847- 1871)

[...]

IV

"Era um sonho dantesco... o tombadilho 
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite... 
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar... 

Negras mulheres, suspendendo às tetas 
Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras moças, mas nuas e espantadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs!"¹ 

[...]

Aconteceu ontem [18], o evento realizado pela Escola Estadual Gilberto Mestrinho. Com o tema: "Zumbi dos Palmares vive em cada um de nós", o evento tinha como objetivo realizar uma reflexão com toda a comunidade estudantil sobre o Dia da Consciência Negra.

O evento foi realizado nos turnos matutino, vespertino e noturno. No turno matutino, teve a coordenação da Professora de História Francirleth Gomes,  o trabalho foi desenvolvido na própria escola.

A novidade desde ano, foi a tentativa de levar o evento para fora dos muros da escola. Os turnos vespertino e noturno, sobre a coordenação do Professor de História Luciano Roberto, com o apoio dos demais professores e o interesse dos alunos, levaram a ideia adiante.

Os trabalhos foram realizados na "Quadra Poliesportiva do Bairro Colônia Antônio Aleixo", conhecida como a "Quadra da Praça", local central do bairro.

Com as portas abertas para que a comunidade pudessem entrar e sair, o primeiro evento deste porte, foi considerado por muitos que estavam presentes, um sucesso. Diversas apresentações ocorreram no evento como: dança, teatro e música.

Aluno do turno noturno e um dos responsáveis pela ornamentação do evento, Leonardo Vasconcelos, 20 anos, aluno do Ensino Médio 2º 03, comentou que "estava feliz em fazer as pessoas pensarem em direitos iguais para todos. Ninguém é melhor do que o outro".

O Dia da Consciência Negra é realizado no "dia 20 de novembro faz menção à consciência negra, a fim de ressaltar as dificuldades que os negros passam há séculos. A escolha da data foi em homenagem a Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares, em consequência de sua morte. Zumbi foi morto por ser traído por Antônio Soares, um de seus capitães. A localização do quilombo ficava onde é hoje o estado de Alagoas, na Serra da Barriga"².

O racismo é fruto de ignorância. É necessário que a sociedade e seus mecanismos sociais, como a própria escola, possa combater esta ignorância que ainda assusta a todos, em pleno século 21.

Cultura, culinária, religião, foram tantas heranças deixadas pelos nossos antepassados afro-brasileiros, que Zumbi dos Palmares não morreu, vive em cada um de nós!


Zumbi dos Palmares vive em cada um de nós
Em 10 imagens

I
Professores da Escola GM

II
Professores da Escola GM

III

IV


V

VI

VII

VIII

IX

X





Referência:

¹ http://www.culturabrasil.org/navionegreiro.htm (Acessado: 19/11/2016).

²http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-nacional-consciencia-negra.htm
(Acessado: 19/11/2016).




        

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Carta de um seringueiro - 1901

(Luciano Roberto)

O sangue misturado nas águas do Rio Amazonas

Euclides da Cunha (1866-1909), o imortal autor da obra Os Sertões, escreveu o seguinte: "De feito, o seringueiro, e não designamos o patrão opulento, senão o freguês jungido à gleba das “estradas”, o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se"¹. A escravidão havia acabado a cerca de 16 anos, quando o escritor pisou em solo amazonense.

Euclides da Cunha chegou em Manaus em 1904. Foi da sua vivência na Amazônia que escreveu o livro que trás a frase acima, chamado À margem da História.

Euclides da Cunha descreveu como ninguém o sofrimento do seringueiro, do nordestino que aqui chegava e era logo chamado de arigó. 

Muitos nordestinos vieram para a Amazônia na esperança de encontrar uma vida melhor. "Calcula-se que cerca de 300 mil imigrantes teriam provindo do Nordeste entre 1870 e 1920, em diferentes momentos"². Muitos vieram do Ceará, Maranhão entre outros Estados.

Vou relatar uma epístola de um seringueiro em 1901. A carta é apenas uma ficção literária com contexto histórico de minha autoria. A ortografia é do nosso tempo, as perspectivas são tão anacrônicas quanta a distância daquele que escreveu na história, o seu próprio sofrimento: o seringueiro.

Do meio do Seringal, 29 de agosto de 1901.

     Querida mamãe, 

Espero e desejo de todo o meu coração que a Senhora goze de boa saúde. No momento em que escrevo, meus olhos se perdem no infinito do Rio Amazonas. Não sei bem onde estou, só sei que estou no meio do seringal.

Mamãe agradeça a tia Raimunda por ter me ensinado a ler e a escrever. Não sabia que tais habilidades eram tão perigosas. Ler e escrever no seringal é perigoso mamãe. Estou escrevendo escondido. O proprietário do barracão é um português cruel, chama-se seu Oliveira. Engana os seringueiros que têm de comprar os seus produtos.

O barracão é como uma quitanda, é o lugar onde compramos mantimentos para sobreviver,  como jabá, farinha, pólvora e cachaça para espantar a solidão. Aqui, a maioria dos seringueiros bebem cachaça. Eu comecei a beber. O papai não bebia?

Seu Oliveira é um português esperto. Vende fiado para todos os seringueiros, mas na ora de notar na sua caderneta, sempre aumenta. Se comprar um pedaço de jabá, ele anota três quilos. Ninguém reclama, a grande maioria dos seringueiros são analfabetos. E os que sabem ler e escrever, fingem não saber, assim como eu.

O que podemos fazer mamãe? Não há outro jeito de comprar nossos mantimentos. O jeito é comprar fiado no barracão do ladrão português, seu Oliveira. Aliás, até tem um jeito de fugir da exploração do seu Oliveira, que é trocar borracha com o regatão. Os regatões são pequenos barcos de comerciantes que aparecem nas noites escuras, trocando mercadoria por borracha com o seringueiro.

Mas é muito perigoso. Se os capangas do seringalista pegar o serigueiro fazendo negócio com o regatão, pode ter certeza, que é morte na certa. O seringalista mamãe, é o proprietário das terras onde estão as seringueiras.  

Estou exausto mamãe! Por que não escutei a senhora? Por que não fiquei mesmo no Ceará? Com todas as dificuldades que deixei aí, a vida ainda era melhor. Tinha minha terrinha, no tempo de seca era uma miséria, mas no tempo de chuva, via o sertão verdinho. Plantava arroz, feijão, milho, era comida farta mamãe. Quantas saudades!

Mamãe as seringueiras são árvores que choram. Nós, os seringueiros fazemos um corte na horizontal nelas, então desce um líquido chamado látex. O látex passa por um processo de vulcanização e torna-se borracha. A borracha vai para Manaus, uma cidade que está crescendo muito por causa da economia da borracha. Vi outro dia seu Oliveira comentar que os barões da borracha acendem seus charutos com notas de cem mil réis. Será que é verdade mamãe? 

Manaus surgiu no meio da floresta! E aqui estou no meio do seringal! Enquanto uns enriquecem, outros morrem na miséria, como eu mamãe. Nossa vida aqui é dura. As quatro horas da manhã já estamos em pé. Nossas roupas são farrapos. Saímos em pequenos grupos no enorme seringal.

O medo é grande, pois a floresta é cheio de mistérios. Tem onças, mas existem bichos pequeninos que são mais perigosos, como o mosquito da malária. Mamãe já vi cabra macho, com febre alta e tremer de frio. Chorando feito criança, numa rede imunda, até morrer. É triste demais! Eu quero voltar para casa mamãe, mas sinto que nunca mais irei sentir o seu cheiro, seu olhar piedoso e seu abraço acolhedor.

Por que não ouvi a senhora? Ainda escuto a sua voz me dizendo: "Não vai meu filho! Este tal de Amazônia é longe demais! Fique aqui! Já passamos por tantas dificuldades, a pobreza é apenas um jeito de Deus, nosso Senhor, testar a nossa fé". Nunca esqueci suas palavras. 

Mas eu era ambicioso demais mamãe, queria ficar rico. Quando ouvi falar do ouro branco da borracha, não lhe escutei.

Mamãe sei que esta carta não chegará até a Senhora. Perdoe o asno do seu filho. Quando o papai morreu, o sertão também morreu pra mim.

Estou tão triste mamãe. Queria deitar em seus braços agora. Queria que a senhora pudesse ver a beleza do Rio Amazonas. É lindo mamãe! O sol daqui é valente e forte como o sol do nosso sertão.

A peixeira do papai que trouxe comigo, continua afiada feito uma adaga, como ele costumava falar. Acabei de usar ela em meus punhos. O meu sangue corre com as águas do Rio Amazonas, misturam-se e tornam-se apenas um.

Mamãe perdoe o teu filho! Perdoa mãezinha...  





  



Referência:

¹ https://euclidesite.wordpress.com/category/frases/a-margem-da-historia/ (acessado: 17/11/2016).

² FILHO, Raimundo Pereira Pontes. Estudos de História do Amazonas. Manaus: Editora Valer, 2000 (pág.133).

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Violência estúpida!

(Luciano Roberto)

Homenagem ao motorista Feitosa de Amorim Félix 

Recebi um telefonema. Era a minha mãe, D. Belinha 59 anos, como é conhecida. Sua voz estava trêmula e baixa, não precisava está próximo para sentir sua tristeza. Aliás, também acordei com esta tristeza em minha alma.

D. Belinha ligou para avisar que não poderá compartilhar do almoço que eu prometi a ela: "pernil de carneiro assado no forno". Minha mãe é cearense, nordestina que guarda suas raízes culturais.

Ela não virá para almoçar. Vai ao enterro do seu colega de trabalho, o motorista de ônibus coletivo Feitosa de Amorim Félix, 41 anos. No último domingo [13], ocorreu o assalto ao ônibus 093, no bairro do Zumbi, Zona Leste de Manaus.

Três jovens estúpidos tiraram a vida do motorista enquanto trabalhava e acabaram com a vida dos seus familiares. Não vale a pena escrever os nomes dos assassinos.

Minha mãe é cobradora de ônibus coletivo. Deus sabe o quanto tenho orgulho da sua profissão, da sua honra, da sua luta, da sua honestidade e do seu caráter. Seu ofício me levou a uma universidade.

Por duas vezes minha mãe foi assaltada no seu trabalho.  Bandidos idiotas, tolos, marginais ignorantes, entram em um ônibus e não têm nada a perder. Pois, qual lucro se tem em roubar um ônibus coletivo?

Cinquenta? Cem? Trezentos? Quinhentos reais? Não é possível que a vida de alguém possa valer alguma quantia? A vida humana vale muito mais do que qualquer dinheiro do mundo!

No caso do motorista Feitosa, R$ 55,00! Assassinos! Monstros! Mataram um pai de família pelo prazer de matar, não há outra explicação. Segundo relatos dos jornais, o motorista não conseguia abrir a porta do ônibus, o terceiro indivíduo que esfaqueou o motorista,  ainda está foragido.

A violência em Manaus anda extrapolando o limite da convivência social. Trabalhadores vão para os seus trabalhos, mas não sabem se irão retornar para seus filhos, maridos e esposas. O Estado assisti a tudo, mas nada faz. Onde está o "Projeto Ronda nos Bairros"? Onde está a valorização dos policiais militares e civis que combatem o crime? O Estado tem obrigação de proporcionar segurança aos cidadãos de bem.

Quem vai enxugar as lágrimas da esposa do motorista Feitosa? Quem vai consolar os filhos que perderam o pai? E se a cobradora não tivesse corrido e descido pela porta detrás do ônibus, teríamos dois enterros?

Meu Deus, tantas interrogações! Quanta violência estúpida!

Hoje, o Cemitério do Tarumã testemunhará mais uma vez o choro incontido dos entes queridos do motorista Feitosa, o chão do Tarumã será regado pelas lágrimas de sua esposa e dos seus filhos, e o único barulho, será o  estampido do barro caindo sobre o caixão, numa cova rasa.

Justiça!






segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Autismo: um espectro para ser vencido nas escolas públicas

(Luciano Roberto)

Transtorno do Espectro Autista - TEA

A primeira vez que ouvir falar sobre "autismo", foi no Centro Educacional Santa Teresinha - CEST, tradicional escola da nossa cidade, localizada na avenida 7 de Setembro, Centro de Manaus. No momento do intervalo, na sala dos professores, a Professora Simone Helen Drumond comentava o assunto com entusiasmo, na primeira década de 2000.

Confesso que não dei a mínima atenção ao assunto. Mal sabia, que um dia iria me arrepender devido a minha ingênua ignorância.

Este ano tive como desafio em sala de aula, dois alunos autistas: Bob e Kika [nomes fictícios das crianças]. São alunos da Escola Municipal São Luiz, bairro Colônia Antonio Aleixo, Zona Leste. Elas estão no 3º Ano do Ensino Fundamental 1.

Bob e Kika me fizeram estudar! Não tinha conhecimento sobre como lidar com crianças autistas, fui em busca de informação. O primeiro passo foi ir atrás de livros que tratassem da temática. Fui numa das maiores livrarias de Manaus, e para minha surpresa, encontrei apenas o livro do Dr. Gustavo Teixeira, "Manual do Autismo". Fiquei decepcionado e assustado.

Então, direcionei a minha pesquisa para internet. Encontrei a Revista Autismo, onde havia uma entrevista com Temple Grandin. A reportagem começa anunciando "Temple Grandin é uma fonte de inspiração para inúmeras famílias e profissionais ao redor do mundo. Atualmente ela é a mais bem sucedida e célebre profissional norte-americana com autismo, altamente respeitada no segmento de manejo pecuário"¹.

Na entrevista Temple Grandin afirmou que "na escola era motivo constante de chacota e vivia triste. O único refúgio longe das provocações eram atividades práticas como passeios a cavalo e o laboratório de eletrônica. As crianças que gostavam dessas atividades não me importunavam. Essas atividades eram os refúgios das provocações. Mamãe foi capaz de me ensinar a cumprir horários e ter boas maneiras, mas ela não foi capaz de me obrigar a estudar. Não me senti motivada a estudar até ter uma razão para isso. Quando estava na escola eu não via sentido em estudar. Existiam certos tópicos em que ganhava nota máxima, como em biologia e outros assuntos como inglês e história nos quais eu não tinha interesse. Meu professor de ciências, sr. Carlock, foi peça-chave em me motivar a estudar"².

A frase "Meu professor de ciências, sr. Carlock, foi peça-chave em me motivar a estudar", acabou me motivando! Não tinha os recursos, mas tinha a motivação. Vale a pena ler a entrevista na integra!

Em minhas pesquisas na internet encontrei um vasto material disponibilizado para trabalhar com crianças com autismo, advinha por quem? Professora Simone Helen Drumond. Para escrever este texto, acabei entrando em contato com a professora Simone, que considero umas das grandes estudiosas do assunto em Manaus. 

Ela fez o seguinte comentário: "Trabalho com autistas em diversas fases da Síndrome e de desenvolvimento de habilidades. Autistas possuem uma maneira diferente de SER e ESTAR no mundo, mas são estrelinhas azuis que possuem habilidades latentes que quando descobertas os permitem transcender. O caminho para essa perspectiva não é fácil, mas é um caminho possível". O conhecimento sempre é possível!
      
O que é Autismo?

Autismo, nome popular que damos ao Transtorno do Espectro Autista [TEA].  O TEA é um transtorno de neurodesenvolvimento, ou seja, a criança com TEA tem meios e maneiras de desenvolver suas habilidades quanto aprendizagem. Elas aprendem, mas têm seu momento para aprender. Não são diferentes, são iguais como qualquer outra criança.

É importante destacar que "o autismo aparece antes dos 3 anos de idade e permanece na idade adulta. Porém suas manifestações podem ser, em muitos casos, notavelmente atenuadas através de programas adequados de intervenção psico-educativa. De cada mil crianças, aproximadamente, uma é autista"³.

Trabalhar com uma criança com TEA exige atenção, aprendizagem e dedicação, é algo grandioso, te faz enxergar que a vida pode ser muito mais simples do que pensamos. Mas não é tão fácil!

Bob 

O Bob sempre leva um personagem para a sala de aula: Pica-pau, Alves dos esquilos, Rocky Balboa, entre outros. No começo do ano ele só falava do Scooby-Doo, o famoso cão dinamarquês medroso do Salsicha - ou seria o Salsicha que pertence ao Scooby-Doo?  A primeira sacada foi trabalhar com o desenho do Scooby-Doo. Tirei uns desenhos da internet, recortei em círculos e atrás escrevi as letras do seu nome.

No começo do ano o Bob não sabia manipular o lápis na mão. Hoje escreve o seu nome, copia, desenha melhor do que seu professor e teve um avanço muito bom. Tão bom que sua mãe me pediu para dar o meu número do celular para a psicologa que acompanha ele. Permiti.

Caso a psicologa ligue perguntando o que eu fiz para o Bob avançar? Já tenho a resposta na ponta da língua: Nada, apenas tratei ele igual a todos os outros alunos! 

Mas nem tudo é flores! Há momentos de crises, um desses momentos é de risos altos e constantes do Bob, e trabalhar com essas crises é complicado. Nada que um abraço não resolva. A solidariedade dos outros alunos com ele é algo fantástico de ver. Os meninos ajudam o Bob amarrar o cadarço do sapato, sua coordenação motora é falha. Quando o Bob quer ir ao banheiro, não deixo ele ir sozinho, tem sempre uma dúzia de voluntários querendo acompanhar ele.

Ouve avanços durante este ano letivo, mas é preciso que o Bob torne-se independente, leia e escreva como qualquer outra criança da sua idade.

Kika

A mãe da minha aluna Kika me deixou emocionado. Sou emotivo e não tenho vergonha. Ela relatou que a Kika não falava, não tinha relação social. Tinha o seu próprio mundo. Não gostava de ir para escola. E que melhorou bastante este ano. Que a Kika só fala do meu nome em casa e que o pai dela morre de ciúmes do tal professor Luciano.

A Kika é super show, tem uma capacidade de concentração incrível. Vou relatar um dos trabalhos que realizei com ela em sala de aula. Fiz um desenho de um sapato num pedaço de cartolina, do tamanho de uma folha de papel ofício A4.

Recortei o desenho em 6 partes. Ela consegui montar em 10 minutos. O tempo neste caso é irrelevante. Cortei mais uma vez o desenho, agora em 8 partes. Novamente gastou dez minutos para juntar as peças. Aumentei a dificuldade, ela passou a gastar mais tempo, mas sempre conseguiu montar. Minha conclusão é que Kika tem uma grande capacidade de concentração e tem condições de ler e escrever. Sua letra é zelosa, faz todas as atividades.

Não é mais calada, é assídua em todas as atividades realizadas em sala de aula. Brinca, corre, fofoca com as outras meninas e dança muito!

Já faz alguns dias que queria escrever sobre o Transtorno do Espectro Autista. Escrevi este texto, que não passa de um relato resumido e pessoal da minha experiência em sala de aula com dois alunos autistas. Permiti várias lacunas quanto ao tema, para serem preenchidas por novas reflexões no futuro próximo.

Sei que muito ainda deve ser feito em nossas escolas em relação à Política Pública de Inclusão, existem leis que aparam os profissionais de educação e alunos especiais, agora é preciso estudá-las!    








¹ http://www.revistaautismo.com.br/RevistaAutismo003.pdf (acessado: 14/11/2016).

² Idem (acessado: 14/11/2016).

³ SURIAN, Luca. Autismo: informações essenciais para familiares, educadores e profissionais de saúde. São Paulo: Paulinas, 2010. (pág. 9)